Sobre a Sementeira e sobre o que me trouxe ao Bloco de Esquerda
● Quando fiz 18 anos, corri a inscrever-me no Bloco de Esquerda. Era um grito de autonomia em relação à família e aos colegas da escola, e um modo de dar consequência à consciência política que crescera sobretudo desde o segundo referendo à despenalização do aborto (2007). O partido, que abarcava vários movimentos e causas à volta de um núcleo marxista clássico mas pluralista, parecia-me — e parece-me ainda — o único espaço político verdadeiramente fluido sem trair a linha ideológica, pouco dado a enraizamentos, com o que isso tem de bom e de mau. Atraía-me também a ambiciosa tentativa de síntese entre tendências, causas e liberdades individuais (liberalismo não económico) — o que mais tarde se chamaria interseccionalidade. O partido conquistou espaço mediático a pulso, com irreverência e provocação, até rebeldia, mas sempre respaldado nos direitos humanos, na ciência e na academia, de onde vinha boa parte das figuras proeminentes. Passados estes anos, considero esta abordagem estética (pensemos numa muito jovem Mariana Mortágua a fazer frente a banqueiros e CEOs em comissões de inquérito ou na campanha presidencial de Fernando Rosas, «Fumando Brocas») uma das razões mais sólidas para esta minha adesão “formal” ao marxismo — e está muito longe de ser uma razão fútil.
No entanto, esta militância foi totalmente silenciosa, não-praticante. Sobretudo nos anos da Troika, em que o movimento parecia fragmentar-se cada vez mais. Foi preciso chegar à Geringonça (2015-19) — aquele momento que representou talvez a última réplica de esperança do 25 de Abril — para me sentir impelido a vestir a camisola, a perder o receio de ser identificado, a entender a urgência de largar qualquer reduto confortável de neutralidade e a querer desempenhar algum papel. Fui em busca dxs camaradas viseenses. Curiosamente, um partido pouco dado a enraizamentos, essencialmente metropolitano, dispunha em Viseu de um grupo considerável de activistas, uma sede num prédio antigo bem localizado, e uma actividade enérgica e muito própria, bastante autonomizada da linha nacional — tudo isto numa cidade do interior norte profundamente conservadora.
Já conhecia a Sementeira das vindas a Viseu nas férias grandes. A sede do partido, todo o primeiro andar de um prédio velho e charmoso em frente à estátua de D. Duarte, abria-se à comunidade durante duas semanas em Julho: nas paredes, pendentes do tecto ou sobre plintos, obras de arte para todas as sensibilidades, de artistas muito diversos. Numa sala de arrumos no rés-do-chão aberta para a rua, que o senhorio cedia nestes momentos, havia concertos de rap ou doom metal, ou jam sessions abertas ao público; à tarde, o espaço dava lugar a oficinas criativas — moldar barro, escrever poesia em grupo — ou a performances coreográficas e palestras. «Fazer a minha parte» no Bloco de Esquerda, percebi rápido, não passava necessariamente pela disciplina de me tornar dirigente ou candidato, e abracei com alegria o convite para participar na construção deste projecto. Estávamos em 2017, ano da quinta edição da Sementeira.
A Sementeira é um festival multidisciplinar, profundamente comunitário, sem patrocínios ou apoios públicos, organizado pelo Bloco de Esquerda Viseu. Nasceu por convicção e voluntarismo, com total autonomia da liderança nacional, de militantes que decidiram aproveitar um activo tão poderoso como uma sede espaçosa no centro histórico para promover o talento dxs criativxs, artistas e artesã(o)s da cidade — e de onde forem, nunca barrámos uma inscrição vinda de outra geografia. Tudo enquadrado num clima de festa de bairro, com exposições, concertos, feira de objectos de autor e discussão política.
O repto para inscrição de trabalhos ou espetáculos é lançado à comunidade meses antes, bem como o convite à participação na organização. Nunca limitámos o acesso a aderentes ou simpatizantes do partido, nem exigimos profissionalismo, nem definimos temáticas. A curadoria é colectiva: nas paredes e nas horas da Sementeira convivem obras produzidas com técnicas, sensibilidades e experiências muito diferentes. A missão passa pela divulgação do trabalho dxs artistxs — que não são pagos pecuniariamente, mas a quem oferecemos refeições e, no caso de quem vem de fora, alojamento. Os alvos são a autocensura e o auto-isolamento, sintomas comuns nos ecossistemas criativos fracos como o de Viseu. Talvez por isso, numa cidade com vida cultural insípida e pouco aberta aos talentos locais (sobretudo se emergentes), a adesão tem vindo sempre a crescer. Para que a Sementeira resulte no seu desígnio de celebração da diferença e tomada do centro pela margem, há todos os anos o esforço de envolver pessoas e colectivos mais ou menos informais que se identifiquem com tribos urbanas sem grande exposição. A Sementeira é também uma coligação alargada de sensibilidades minoritárias e marginalizadas.
O trabalho de organização é 100% militante — não necessariamente no partido, mas subscrevendo o manifesto de cada edição e a causa cultural. Apesar dos préstimos particulares de cada pessoa, todxs acabamos por acumular tarefas, ao sabor das necessidades. E claro, todas as decisões passam por processos democráticos. A mim, e à Cooperativa Artística Cabanões Cardoso, tem cabido desde a edição V o trabalho de identidade e comunicação gráfica — se tal puder assim chamar-se. Como continuamos a fazê-lo nove anos depois, passando por esse rigoroso crivo democrático, deve estar a ser bem feito.
Entendemos a imagem do evento mais como um universo gráfico amplo, com múltiplas combinações possíveis, do que como uma identidade corporativa fixa e regrada. A continuidade entre edições é garantida pela atitude mais do que por grafismos específicos — exceptuando o logótipo do BE ou o símbolo-mascote, cujo desenho também vai sendo revisto. Este é o nosso contributo artístico no programa da Sementeira: tem o nosso traço pessoal, é um pouco a nossa parede da exposição, mas é também parte do programa. A imagem da Sementeira, a forma como se vai desdobrando a cada fase, é work-in-progress e programa-a-acontecer, seja nas partilhas das redes sociais ou em objectos de comunicação urbana como autocolantes, flyers, stencils, cartazes.
Não sendo sempre imediatamente legível, é uma mensagem que se presta a ser descodificada — mas nem por isso é inacessível. Pretende rasgar a pasmaceira da restante comunicação urbana viseense, provocar, subverter. Essa insolência, esse grito emancipatório, são únicos na paisagem e a identificação tornou-se instantânea. Não recorremos ao léxico gráfico habitual da maravilhosa história visual dos partidos marxistas. A ideia passa sempre por: como atear um fogacho de Revolução Cultural sem precisar de símbolos gastos ou ortodoxos? De forma acidentada, tentamos trilhar o nosso próprio imaginário. Ao longo dos anos, fomos também acolhendo nos nossos processos contributos de outros artistas.