Há o sair do armário;
Miguel
Cardoso é o armário.
A sua prática, ‘técnicas’, ferramentas e pensamentos mais ou menos avulsos sobre comunicação gráfica
não significam que se assuma como designer.
Nem tem este site o propósito de o legitimar a fazê-lo.
Não é um portefólio.
● Não é designer porque o seu trabalho carece de sistematização e até de um estilo. E este site não é um portefólio porque não dispõe de uma mostra verdadeiramente diversificada, hierarquizada, simplificada, resumida, vendável do seu trabalho. Acondiciona, em gavetas e prateleiras, montes de bytes em registos da prática que leva bastante do seu tempo e é na maior parte dele a sua actividade profissional e ganha-pão, e se refere genericamente à produção de soluções de comunicação visual. Muitas vezes não se poupa em detalhes e redundâncias sobre trabalhos académicos ou que não chegaram a ser — acervo obsessivo; noutras vezes é particularmente lacónico, não chegando a provar os méritos de certas estratégias ou resultados que foram postos em prática — portefólio amador.
O Miguel pode apresentar-se com nomes diferentes, dependendo da situação e sem que coabitem em si vários alteregos, mas a natureza de um site ʻbatido à mãoʼ, escrito quase linha-a-linha, na vulnerabilidade de quem apresenta objectos e processos íntimos ou constrangedores, só podia ser assinado pelo nome através do qual se pode meter em sarilhos: o do registo, o de baptismo, Miguel R Cardoso. É uma responsabilização [risos].
Nota biográfica
Reflectir a identidade, em quadrantes que vão do pessoal ao político mas que acabam quase sempre misturados, é uma obsessão. Nasceu em 1991. Nos encandeamentos da sociedade do espectáculo próprios do tempo que lhe calhou, a forma como se embrulham, apresentam e arquivam as ideias cedo se fez objecto de deslumbramento. Para as coisas serem, parecerem primeiro: esta inclinação talvez fútil aproximou-o das artes gráficas, e por maior que fosse o espectro da sua diletância de saberes e fazeres, interesses e acções, esse reduto mínimo foi sempre a única constante da sua produção.
Eventualmente foi mesmo estudar Design Gráfico e Multimédia na ESAD das Caldas da Rainha, talvez por lhe ter parecido que seria de caras; ou porque das coisas que sabia fazer, esta seria aquela que unia todas e que mais se assemelhava com uma profissão... e lá entendeu que, afinal, esta manha, ou canivete suíço, é com toda a legitimidade uma área de estudos seríssima. «Para me recentrar depois dessa realização com o seu quê de penosa, e para ser honesto, sou obrigado a descrever a minha prática como doméstica: uma vidinha gráfica. Errática, humana.»
No tempo em que as identidades visuais se democratizaram, primeiro com os templates altamente "customizáveis" e depois com a automação de precisão algorítmica, o que faz um designer? Quem é o designer e quem pode ser um designer?
● O trabalho do Miguel passa por saber imiscuir-se em equipas criativas, como tem acontecido com equipas de produção de eventos culturais e colectivos de participação cívica, e assumir o papel da comunicação visual tendo sempre em vista processos colaborativos. O seu entendimento sobre identidades visuais e demais trabalhos em artes gráficas não descola da subjectividade da criação artística ou da ideia de autoria, com a nuance de esta ser, nesta área, e necessariamente, colectiva. Cada caso, um caso. Não tem uma ideia unívoca e absoluta de legibilidade quando pensa em comunicação. Dependendo do contexto, gosta até de a desafiar. O alcance da sua prática tem sido, por motivos bastante biográficos, local e comunitário. Interessa-lhe trabalhar na legitimação e auto-determinação de marcas, produtos e colectivos. Não adere a supostos universalismos que escondem intentos de assimilação.
Acredita num uno feito de múltiplos vibrantes, identitários, que se interseccionam. Gosta de ornamentos. «Considero-me um deslumbrado, vejo tesouros em tudo, sobretudo no mundano, e portanto sou um recolector.» Em todo o caso, é essa a qualidade primordial do gráfico. Não acredita que ʻse o trabalho gráfico foi bem feito, nem se notaʼ. As linguagens visuais servem para criar públicos, como quem diz: encontrar pessoas e estabelecer vínculos. Os seus projectos podem começar na transcendência dos conceitos, mas também é o tipo que vai à última da hora safar uma fita-cola. Fazer parte de projectos de pequena escala e trabalhar com instituições locais dá-lhe flexibilidade, autonomia e, tendo o defeito de impedir que se especialize, equipa-o a cada ano com mais meia dúzia de técnicas e desenrascanços vários.
O Miguel faz parte da nobilíssima Cooperativa Artística Cabanões Cardoso — maior honra não há, mesmo no tempo dos liberalóides, é um batalhão de génios destes tempos, sempre a dar a volta ao texto. Nem todxs são Cardoso, nem vêm de Cabanões: a cooperativa tem um nome acidental que recorda sempre de que o sentido é o amor e o amor é casa.
Amor de Cristo e outrém!!! (canta em coros e pratica teologia doméstica com pouca erudição mas da maior sofisticação — tal como o marxismo). Mas apesar da lábia fanfarrona, contem com ele, sabe fazer algumas coisas, aprende depressa e é amigo de ajudar.
É uma garantia:
sempre mais útil que caro.
Texto de Norberto Castro. Conteúdos, textos dos projectos, desenho do site e desastrada programação por Miguel R. Cardoso, com os tipos de letra Times New Roman MT Condensed, MingLiU e Maison. Nenhum direito reservado: se houver alguma coisa que mereça ser copiada, força!
Site publicado em Julho de 2026.
Com um abraço gigante, do tamanho da paciência, para a JDS <3, mommy, Pinoshaite e Deidra, Ti Nita, vó São, papai Julião e vô Álvaro (ambos descansando em paz), Gemeans, Primazia e restante família pergulhense, camaradas do Bloco da Visa e do Cine Clube, para os amigos de longuíssima data que acompanharam os primeiros passos deste projecto, sobretudo a Marta, o Vitinho, Mr Tiggz, Fabito Mitra e Justafá, com um beijinho grande para as famílias (Neuza! Santi! Maria João!), para o Frei Zé Carlos e ordem franciscana dos Terceiros, e para os amigos novos do grupo de teatro da Amarelo Silvestre. Para os dillaz de cada age. Para as pastelarias de Viseu, sobretudo a da Praça de Goa e para o Município de Proença-a-Nova e suas gentes pelo concelho mais discretamente incrível do país. Para as...