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Via sátira
Happening
Performance
Acção política
● Em 2018 contaram-se 50 anos sobre a fatídica queda da cadeira do ditador António de Oliveira Salazar, incidente fulcral na linha de tempo que desembocaria uns anos depois no fim do regime.
● Sob a chancela «Sementeira», marca da intervenção política autónoma do Bloco de Esquerda Viseu na área da cultura (geralmente sob a forma de um festival artístico, transdisciplinar, que costuma ocorrer durante vários dias no Verão), Via Sátira foi a proposta que desenvolvemos para assinalar a data. Com tónica na ironia, esta performance/happening consistiu numa procissão de tom religioso, em que os intervenientes transportavam cadeiras, elevadas, pelas ruas do centro histórico da cidade, ao som (amplificado!) de uma adaptação do cântico «Avé de Fátima». Na letra de Avé Cadeira canta-se a Cadeira-Mártir, símbolo inusitado do início do fim do Estado Novo. Os preparativos da acção incluíram uma oficina de participação aberta, com várias sessões ao longo de semanas, em que os participantes intervieram artisticamente sobre um conjunto muito diversificado de cadeiras. Estas ficaram depois expostas no centro comercial Ícaro, destino da procissão. Esta actividade fez parte da programação do Desobedoc 2018, festival de cinema insubmisso.
ENQUADRAMENTO→ O malfadado episódio ocorreu a 3 de Agosto de 1968, durante uma rotineira sessão de pedicure, em solarenga manhã de férias no Estoril. O acidente traria maleitas ao ditador das quais nunca chegaria a recuperar; seria substituído por Marcelo Caetano e, em 1974, o regime faliu de vez com a revolução dos Cravos. ¶ No entanto, em memória de tão nobre poiso, devemos tirar uma lição: chega de esperar que as cadeiras caiam sozinhas. Propomos que reflictas quais são os obstáculos que se atravessam no cumprimento do sonho de um Portugal livre e tolerante; que definas o medo que mais te ameaça; que te livres dele; que o sentes numa cadeira, e que a seguir a atires ao chão.
A TUA CADEIRA→ Traz a tua cadeira. Ou faz a tua cadeira. ¶ Personaliza, pinta, constrói a cadeira em que gostavas que se sentasse esse medo. Pode ser qualquer tipo de cadeira: meta-cadeira, hiper-cadeira, pós-cadeira, não-cadeira, e claro, cadeira-mesmo. Ou representa a tua cadeira: em suporte de papel, ou multimédia, ou de forma performativa, ou de outra forma qualquer. ¶ Pretendemos fazer uma exposição para assinalar esta efeméride inusitada, e gostávamos que participasses.
A PROCISSÃO/DANÇA-DAS-CADEIRAS→ Por outro lado, no mundo contemporâneo, ainda tão marcado pelas concorrências desleais, pela servidão humilhante que prestamos à ilusão de vida que nos é imposta, não se aparentará a forma como nos relacionamos socialmente com uma dança de cadeiras em que quem-vai-ao-ar-perde-o-lugar, e a solidariedade, a compreensão e a tolerância logo-se-vê? ¶ Queremos criar uma coreografia, uma performance, uma imagem em movimento que traduza esta ideia. Pode ser que então descubramos como lhe escapar, ou como resolver a dança das cadeiras: cabemos cá todos! Cadeiras para todos já!
Carregar nas miniaturas à direita para ver as várias versões do cartaz em tamanho grande.







A TUA CADEIRA→ Ao longo de alguns encontros semanais, foram-se tomando as decisões sobre a forma da nossa procissão/performance. ¶ Deixámos as portas abertas para que todos os que quisessem juntar-se aos festejos, pudessem entrar e intervir artisticamente nas cadeiras.


















Nas fotografias, trabalhos meus, da Ana Carolina Gomes, Ana Prata, António Gil (o Salazar é dele!), Fernando Bento, Gerrie Wolfs, Pedrokas e talvez de mais gente que não registei. Fotografias do Pedrokas e do Filipe Cardoso.

AVÉ CADEIRA→ Um cântico estridente e em altos berros pelas ruas do Centro Histórico de Viseu, a Cadeira-Mártir no coração, e o Desobedoc 2018 quase a arrancar: funcionou como uma chamada para o Cinema Ícaro; os filmes começavam daí a pouco. ¶ Fotografias de Cris Nogueira.

Com a ditadura veio a repressão
Mas com a cadeira, a nossa salvação!
REFRÃO:
Ó Cadeira, deitó abaixo!
Ó Cadeira, qu'ele é um facho!
Canta-se a cadeira pelo poder que tem:
Fazer cair o mal; levantar o bem!
Canta-se a Cadeira p'lo repouso c'oferece.
Viva a liberdade, que os direitos tece!
Cadeira amiga, fim ao censor!
Eu digo o que eu quero a esse estupor!
Atiraste ao chão a velha ditadura.
Só em liberdade se encontra a cura!
O ouro nos cofres... de que me serve isso?
Antes nos bolsos p'ra comprar um chóriço!
Amor não é crime! Era o que faltava!
Gosto do que eu quiser: homem ou mulher.
Rangeste abatida sob esse traseiro...
Assim deste cabo desse arruaceiro!
























Trabalhos meus e de Ana Carolina Gomes, Ana Ataíde, Ana Prata, anitanãoana, António Gil, Fernando Bento, Gerrie Wolfs, Graça Carvalho, Pedrokas. Declamação (infelizmente, não disponho aqui de fotografias) por Manuela Coelho Antunes. Fotografias de Pedrokas e Filipe Cardoso.