Os Salvadores
da Nação
Photobook
14,4x19cm
464 págs.
4 volumes
Microsoft Sans Serif
Trabalho colaborativo com o Pedrokas, aka deidra corp.
● Os Salvadores da Nação é um álbum de fotografias que acompanha a vida da minha família, a sua rotina cíclica, os seus lugares, os seus gatos, durante dois anos: a narrativa começa na festa de S. Marcos, comemorada na aldeia do meu pai (Pergulho, Proença-a-Nova, Castelo Branco), em Abril de 2013, e o desfecho dá-se no certame de 2015. O conjunto das fotografias é particularmente fidedigno e completo porque resulta de um processo exaustivo, ou tão só de um rito de irmãos (eu e o Pedro, que se dá a conhecer artisticamente por deidra corp.), que consistia em andar diariamente munidos de máquinas fotográficas compactas, muito domésticas e baratas, a registar o nosso quotidiano. Este processo só passou a ser informado, isto é, a alimentar este projecto, já no fim do período a que se reporta a narrativa. Quando, na cadeira de Projecto Fotográfico orientada por PATRÍCIA ALMEIDA, optei por resgatar e dar por fechado este conjunto de fotografias, seduzia-nos a ideia de encadeá-las num objecto, sem as tratar digitalmente, sem omitir sequências, nem alterar a sua ordem, para obter uma espécie de reconstituição da vida familiar durante aqueles anos, e quem sabe, encontrar nela algo de universal.


















Ler fotografia
Não aconteceu nada de extraordinário durante aqueles anos, não viajámos, não passeámos, os locais onde passámos férias são as casas de família da praxe, não comemos em restaurantes, e apesar de Os Salvadores da Nação só o referir implicitamente, chegámos a andar de corda no pescoço devido à crise económica que, numa família cujos rendimentos dependiam de um ordenado na função pública, com filhos na universidade, se fez notar vincadamente.
O objecto dos acontecimentos retratados, este período, era portanto acertado para falar de nós, até para nos caricaturar. As nossas fotografias eram tão cruas que se poderia falar num realismo asfixiante, de mundano e redundante. Mas deparámo-nos, durante a fase de composição, com as características próprias da linguagem fotográfica: ler fotografia é diferente de ler texto, e mesmo que uma fotografia sirva aparentemente para gravar objectiva e fidedignamente uma situação, principalmente quando não é encenada, na verdade presta-se meramente a isolar uma imagem.
Quem delimitou e compôs a fotografia e o que isso diz sobre a mesma? É possível uma fotografia não ser encenada? Num álbum, mesmo que para um determinado evento se contem dezenas de fotografias, quase a imprimir movimento, para documentar uma situação, ainda que muito curta, a que elementos semióticos estará sujeita a sua devida interpretação? A reconstitução deixou de ser a nossa meta. Do que tínhamos feito, lembravam-nos bem as fotografias. Que história contaria aquele conjunto de fotografias, a qualquer pessoa, sem ter de recorrer a demais elementos? Falaria mesmo de nós, da crise, de Viseu? O que teria de universal?














O título
Quando o objecto começou a ser executado, num faseamento duro e obstinado, já que falamos de mais de 6000 fotografias, decidi chamá-lo de “Os Salvadores da Nação”, título que o deidra corp. iria atribuir ao seu álbum de noise pop. Uma pérola absoluta: compôs as músicas com recurso a um teclado barato, muita manipulação e distorção digital, instrumentos virtuais freeware oriundos da internet, uma voz trémula de adolescente, inspiração em criaturas divinas como Kevin Shields, e a grande maioria das letras adaptadas de poemas que o nosso avô, cinquenta anos antes, e com contornos genealógicos relevantes para a nossa existência, redigia para conquistar a nossa avó.
Músicas para encantar alguém, hoje, com palavras de há duas gerações. É caseirinho, vi-o a ser feito, mas é francamente um dos meus discos de eleição. Esta associação entre os dois objectos seria a dose de semiologia necessária para a narrativa fotográfica. Então, é frequente ser interrompida por separadores, de papel diferente, com estes poemas, sem que o leitor perceba exactamente porquê.
























Os Salvadores da Nação
Tanto se resume a um baú de memórias familiares, como propõe um segmento da vida de personagens desconhecidas que nos atiçam a que as sigamos. Até a nós. A nostalgia, as raízes, a terra mãe, o solo sagrado, o sangue são fantasias assim que se lhes roube o contexto. Ode ao mundano, Os Salvadores da Nação fala de universalidade, cosmopolitismo, em lugares-nenhuns, em gente-qualquer, em múltiplas histórias possíveis, ainda que, e só aparentemente, detalhadas. Que nação?




Na lógica do conceito editorial que eu e a Marta Almeida idealizámos sob a chancela Diplomática, este trabalho, apesar de ter valor e razões próprias, serve de manifestação física (isto é, de formato físico) ao álbum homónimo do deidra corp.